A síndrome do intestino irritável, conhecida como SII, é uma condição funcional caracterizada por dor abdominal recorrente, distensão, alteração do trânsito intestinal e impacto direto na qualidade de vida. Hoje, a ciência já reconhece que a microbiota exerce papel central nesse processo, influenciando motilidade, sensibilidade e comunicação entre intestino e cérebro. Neste artigo, exploramos como o desequilíbrio do ecossistema intestinal contribui para os sintomas da SII e por que tratar a microbiota é uma estratégia essencial tanto para sintomas digestivos quanto emocionais.
Links internos sugeridos:
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O que a ciência entende hoje sobre a SII
A síndrome do intestino irritável não é causada por um único fator. Ela resulta de uma combinação de sensibilidade visceral aumentada, alterações na motilidade intestinal, inflamação de baixo grau, permeabilidade aumentada e disbiose. A microbiota aparece como peça central porque regula todas essas vias ao mesmo tempo.
Pacientes com SII apresentam composição microbiana diferente de indivíduos saudáveis. Há redução de espécies protetoras e aumento de bactérias capazes de produzir gás em excesso, estimular dor e ativar o eixo do estresse.
Evidência científica:
Tap J et al. Identification of an altered microbiome signature in IBS.
https://www.gastrojournal.org/article/S0016-5085(17)36346-3/fulltext
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Como a disbiose contribui para os sintomas da SII
2.1 Aumento da sensibilidade visceral
A disbiose amplifica a ativação de canais sensoriais no intestino, tornando as terminações nervosas mais responsivas a estímulos leves. O resultado é dor, desconforto e sensação de distensão após refeições que antes eram bem toleradas.
2.2 Produção aumentada de gases e fermentação
Bactérias que metabolizam carboidratos rapidamente produzem grande quantidade de hidrogênio, metano ou sulfeto, o que aumenta distensão, flatulência e sensação de “estômago estufado”.
Especialmente relevante:
- excesso de Prevotella e Clostridium pode aumentar fermentação
- excesso de arqueias produtoras de metano pode reduzir velocidade do trânsito intestinal
Evidência científica:
Zhuang X et al. Fecal microbiota alterations in IBS.
https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5909564/
2.3 Permeabilidade intestinal aumentada
A disbiose reduz a integridade da mucosa intestinal, facilitando a passagem de moléculas inflamatórias para a circulação. Isso intensifica dor e ativa o sistema imune, perpetuando o círculo da SII.
2.4 Inflamação de baixo grau
Mesmo sem inflamação evidente nos exames tradicionais, pacientes com SII apresentam aumento de citocinas inflamatórias que interferem tanto nos neurônios entéricos quanto em áreas cerebrais ligadas à modulação da dor.
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Microbiota, eixo intestino–cérebro e SII: a razão para sintomas emocionais associados
A SII é uma das condições onde o eixo intestino–cérebro está mais ativo. O intestino envia sinais constantes ao sistema nervoso central, influenciando ansiedade, humor e percepção da dor.
3.1 Comunicação alterada com o cérebro
A disbiose interfere em:
- síntese de serotonina intestinal
- transmissão de sinais do nervo vago
- atividade de receptores ligados à modulação do medo e da vigilância
- reatividade ao estresse
O resultado é um paciente que não apresenta apenas sintomas digestivos, mas também irritabilidade, ansiedade e sensação de tensão interna.
3.2 A SII como condição sensível ao estresse
O eixo HPA é hiperativado em muitos pacientes com SII. Pequenos estressores podem desencadear espasmo intestinal, aumento da motilidade, dor e urgência evacuatória.
Essa interação é bidirecional:
- estresse piora a SII
- a SII piora o estresse
- juntos, amplificam ansiedade
Evidência científica:
Fond G et al. Anxiety and IBS: the brain–gut connection.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23401455/
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Como a microbiota influencia cada subtipo de SII
A SII tem apresentações diferentes, e a microbiota desempenha papel distinto em cada uma.
4.1 SII com diarreia
Comum presença de:
- aumento de Escherichia coli
- redução de bactérias produtoras de butirato
- maior ativação imunológica
- trânsito acelerado por estímulo inflamatório
4.2 SII com constipação
Comum presença de:
- aumento de arqueias produtoras de metano
- maior absorção de água nas fezes
- trânsito intestinal lento
- distensão e dor associadas à retenção
4.3 SII mista
Apresenta oscilação dinâmica entre padrões de disbiose associados aos dois subtipos anteriores.
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O papel dos probióticos na SII
Probióticos podem ajudar modulando fermentação, reduzindo inflamação e fortalecendo a barreira intestinal.
Cepas com evidência incluem:
- Bifidobacterium longum
- Lactobacillus plantarum
- Faecalibacterium prausnitzii (via transplante ou pré-bióticos específicos)
Essas cepas ajudam a reduzir dor abdominal, frequência de gases e urgência evacuatória.
Evidência científica:
Ford AC et al. Efficacy of probiotics in IBS.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29457874/
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Dieta e SII: como ajustes alimentares ajudam a restaurar microbiota
A modulação da microbiota também ocorre pela alimentação.
Inclui:
- redução de açúcares fermentáveis
- estratégias guiadas como FODMAP com acompanhamento nutricional
- dieta anti-inflamatória
- introdução gradual de fibras solúveis
- observação de alimentos que provocam hiperfermentação
Essas estratégias devem ser conduzidas por nutricionista habilitado.
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Sinais de que a microbiota está envolvida na SII
Pacientes podem observar:
- piora emocional associada a dor ou distensão
- sintomas após alimentos fermentáveis
- sensação de “nó” emocional quando o intestino está mais irritado
- ansiedade matinal acompanhada de sintomas digestivos
- alterações de humor ligadas a períodos de constipação
Quando buscar avaliação
A SII deve ser avaliada por médico com formação especializada. Ajustes alimentares devem ser orientados por nutricionista habilitado, especialmente quando envolve estratégias específicas como FODMAP.
Nota legal
Este conteúdo é informativo e não substitui acompanhamento individualizado. Em caso de sintomas persistentes, procure profissionais capacitados.
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