13139039_1684259348502419_307506823515642819_nConversando sobre saúde com o Dr. Italo Rachid
Edição 05 – 01/05/2016

DOANDO AMOR…

Um dia, anos atrás, tomamos a decisão de dedicar as nossas vidas à Medicina. Talvez ainda nem possuíssemos a necessária maturidade para compreendermos a sua dimensão e significado. Estudamos com afinco, horas sem fim, até que, após aprovação em um duríssimo vestibular, celebramos com alegria. Longos anos na graduação, onde, por vezes, alternamos momentos de encanto e desapontamento. O tempo corria célere, até, sem que percebêssemos, nos tornamos médicos. Começava ali uma nova etapa da vida e um desafio ainda maior: o ingresso na Residência Médica. Mais uma fase de muito estudo e dedicação, mais uma alegria ao recebermos a notícia da aprovação, mais anos de desafios e trabalho duro, por vezes sobre-humano, até que cruzamos a reta de chegada: sim, estávamos completos e, por fim, preparados para bem servir ao próximo. A partir daquele momento, o encanto e o sonho foi, para muitos de nós, pouco a pouco cedendo espaço para a dura e cruel realidade com que se pratica medicina no nosso país. As condições de trabalho são muitas vezes insalubres e inadequadas. Cerca-se de limitações de toda sorte, quer estruturais, quer materiais. A remuneração é inadequada. Muitos, para compensá-la, acabam por assumir múltiplos vínculos empregatícios. A carga laboral é excessiva, a pressão sobre os costados é enorme. Inexiste tempo para cuidar de si, para o estudo, lazer, meditação, reflexões. As consultas ocorrem em tempo exíguo, onde mal consegue olhar para as pessoas, trata-las pelo nome. Se encontra envolto em um cenário onde a possibilidade de erros diagnósticos é elevada. Torna-se uma máquina de trabalhar e não consegue mais parar para refletir sobre o resultado das suas propostas terapêuticas, nível de satisfação dos seus pacientes. Não tem mais tempo para pensar sobre si mesmo, sua qualidade de saúde, o tempo que nunca existe para a família e para os que ama. Não sabe mais a quem serve: à saúde ou à doença! Por fim, permite que a sua caixinha de sonhos seja completamente esvaziada, olha em volta de si mesmo e não mais se enxerga. A voracidade do tempo e a forma robotizada com que exerce a sua profissão o transportam para bem longe daquele jovem sonhador que um dia pensou ser possível mudar o mundo através da medicina…
Esqueceu completamente quem é e por que é médico. É incapaz de enxergar que o homem não é um ser material vivendo uma experiência espiritual. O homem é um ser espiritual vivendo um contínuo processo de evolução, tendo como professor a sua vida fenomênica, e usando uma vestimenta chamada corpo carnal. Esqueceu que praticar medicina não é apenas fazer diagnósticos, seguir protocolos ou prescrever remédios.
Praticar medicina é, enquanto cuidador, ter, ele mesmo, a melhor saúde entre todos. É ter tempo para si, para sua família, para os seus pacientes, abraça-los com carinho, trata-los pelo nome, fita-los nos olhos. É estar genuinamente comprometido em servir, dar o seu melhor. Praticar medicina é deixar de lado a mesmice, o peso da rotina e fazer de cada dia um novo recomeçar. É voltar a sorrir como criança, revestir-se de entusiasmo juvenil e ter a certeza de que é possível mudar o mundo, semeando o bom e o bem. Praticar medicina é exercer com gratidão sabedoria e maestria um dom e uma missão que nos foi concedida diretamente por Deus. Praticar medicina é agradecer a Deus por todas as coisas, é redescobrir a alegria de servir, é empregar todo o conhecimento, energia, entusiasmo e devoção em benefício do próximo e percebe-lo como nosso irmão. Praticar medicina é, acima de qualquer outra coisa, admirar a beleza e sabedoria contidos na palavra que, na língua japonesa, define a nossa profissão: Jen-Jutsu. Significa, simplesmente, doar amor! Ótimo domingo a todos! Italo Rachid – CREMESP 114612