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Conversando sobre saúde com Dr. Ítalo Rachid

Informativo # 03

Os Hormônios e o Envelhecimento

Nós humanos possuímos sistemas biológicos abertos através dos quais matéria e energia fluem. Incontáveis fatores internos e externos constante e permanentemente nos afetam, desde o alimento que ingerimos até o ar que respiramos. Entretanto, a crescente desordem molecular exerce, sem nenhuma dúvida, forte impacto nos processos de envelhecimento.

Variações na velocidade e nos padrões de desordem em moléculas que constituem nossos tecidos podem ser a explicação do porque alguns dos nossos órgãos envelhecem mais rapidamente do que outros e também podem justificar a razão da velocidade do envelhecimento sofrer variações tão amplas de indivíduo para indivíduo.

A velocidade do envelhecimento humano está condicionada a quão bem evoluímos, quão bem nos cuidamos, quão eficientes são os nossos sistemas de reparo e da nossa herança genética.

Em última análise, embora não deixe de ser irônico, não podemos culpar a natureza pelo nosso envelhecimento. A natureza nos configurou apenas e tão somente com o intuito de atingirmos a plenitude reprodutiva.

Fomos nós mesmos que a driblamos e alteramos o plano original, ousando e permitindo-nos viver impunemente muito além do nosso limite reprodutivo e abrindo uma verdadeira caixa de Pandora de perdas funcionais e cumulativas que resolvemos denominar envelhecimento. Mesmo o Universo caminha para um estado final de crescente desordem. Não temos, até o presente momento, qualquer razão para crer que seres vivos constituam uma exceção a esta lei universal.

Envelhecer, é, na realidade, um artefato criado pela civilização, porquanto somente se expressa em animais civilizados (humanos), ou animais que os humanos decidiram proteger.  Nenhum animal não-humano gasta mais de 2/3 da sua vida experimentando e padecendo de declínio gradual e cumulativo das suas funções fisiológicas.  Aprendemos como modificar nosso meio ambiente, desta forma, passamos a viver muito além da nossa capacidade reprodutiva e a experimentar o fenômeno denominado envelhecimento, algo que jamais planejamos descobrir.

O contraponto de todo este processo é que nossos sistemas biológicos, metabólicos, de construção e de reparo são simplesmente incapazes de nos manter em perfeito equilíbrio por muito tempo além dos 30 anos. Este parece ser o nosso limite de excelência metabólica e funcional, uma espécie de “certificado garantia” que nos foi concedido pela natureza.

Pela perspectiva das taxas atuais de longevidade, pode parecer pouco.

Por outro lado, se examinarmos a escala de evolução da espécie humana ao longo dos últimos quatro milhões de anos, desde os proto hominídeos, iremos perceber facilmente que, na realidade, nunca conhecemos ou experimentamos este fenômeno atípico na natureza denominado envelhecimento.

Analisemos, como exemplo, a expectativa de vida apenas nos últimos milênios.

Em Roma antiga, cerca de 2.400 anos antes de Cristo, a expectativa de vida humana era de meros 17 anos. Na idade média era de 25 anos, em meados do século XIX, 30 anos, e foi apenas na terceira década do século XX que a expectativa de vida atingiu 50 anos. Hoje é de 84 nos países desenvolvidos. Acontece que no nosso genoma, que é o mesmo dos homens que viviam há 10.000 anos atrás, não está configurada a ordem de nos manter hígidos e capazes após os 30 anos. Na realidade, o limite de 30 anos demonstra a generosidade e abundância da natureza. As coisas começaram a mudar a partir do momento em que começamos a expandir a nossa expectativa de vida para limites cada vez mais distantes dos 30 anos, e, sem nos apercebermos, começamos a conhecer o envelhecimento.

A verdade nua e cruel é que a mãe natureza não tem qualquer interesse em manter hígida e viva uma criatura que ultrapasse o seu limite de maturação reprodutiva. Ao violentarmos este limite que nos foi concedido, passamos, sem nos aperceber, a pagar um elevado tributo por nossa ousadia.

O que a natureza faz conosco a partir dos 30 anos, é simplesmente nos preparar de forma progressiva e sorrateira para a morte. E como é que esta mensagem é repassada às nossas células? Simples: a natureza começa a diminuir a nossa capacidade de construir, repor e reparar, processos que conhecemos em seu conjunto como anabolismo, e, ao mesmo tempo, eleva gradualmente a atividade de destruição e desconstrução, processos que conhecemos em seu conjunto como catabolismo.

Como os hormônios são os mensageiros químicos que controlam todos os processos de reparo, permeabilidade da membrana celular, ativação de enzimas e síntese de proteínas, nada mais previsível do que a natureza executar seus comandos de autodestruição programados através do controle da produção dos nossos hormônios.

A partir do período compreendido ente os 25 a 30 anos de vida, iremos, todos nós e sem exceção, experimentar um crônico, cumulativo e irreversível declínio na capacidade de produção de hormônios que controlam o anabolismo, ao mesmo tempo em que sofremos com a concomitante e inversa elevação da capacidade de produção de hormônios que controlam o catabolismo.

De modo análogo a uma conta bancária, que para atingir saúde e liquidez precisa manter os depósitos (anabolismo) maior do que os saques (catabolismo), nós seres humanos, só conseguimos nos manter funcionais até o momento em que a produção de hormônios anabólicos predomina sobre a produção de hormônios catabólicos.

Podemos resumir todo este raciocínio numa equação linear estabelecida por Shemell Mormelson, ainda nos anos 50. Ele afirmava que o ser humano cresce e se desenvolve quando anabolismo é maior do que catabolismo. Atinge o apogeu da saúde e da capacidade reprodutiva quando anabolismo é igual a catabolismo (exatamente a fase da nossa vida que corresponde a faixa dos 25 a 30 anos), e envelhecimento será todo o tempo de nossas vidas em que anabolismo for menor a catabolismo (mais ou menos dos trinta anos em diante).

Não é casual que, quase todos nós, passamos a experimentar um correspondente declínio nas nossas capacidades físicas e mentais a partir desta fase da vida e, mais marcantes ainda, experimentaremos uma gradual, crônica e cumulativa deterioração da composição corporal, caracterizada por aumento da gordura corporal total e da gordura intra-abdominal, associada a uma gradual redução e atrofia da massa muscular.

Sabemos hoje, que os nossos hormônios não caem porque nós envelhecemos. Nós envelhecemos porque os nossos hormônios caem!

Na medida em que nossos sistemas de produção hormonal vão sofrendo exaustão, passamos a produzir cada vez menos hormônios anabólicos, de modo que, quando esta produção cai abaixo dos níveis fisiológicos instalam-se as múltiplas deficiências hormonais, que dentro do contexto da Medicina Integrativa, denominamos Pausas Humanas.

Ao declinar os níveis ovarianos de Estradiol, inicia-se a Menopausa. Quando caem os níveis de Testosterona, tem início a Andropausa. Ao não conseguir mais produzir ou liberar o Hormônio do Crescimento, a hipófise sinaliza com a instalação da Somatopausa. Eletropausa é a incapacidade do cérebro manter níveis circulantes elevados de Pregnenolona, enquanto que, ao esgotar a sua capacidade funcional a córtex suprarrenal dá início aos processos de Adrenopausa e Fadiga Adrenal. A incapacidade de manter níveis fisiológicos cerebrais de Melatonina é denominada de Melatopausa, enquanto que a perda da capacidade de manter a produção de níveis fisiológicos de T3, o mais importante hormônio da tireóide, instala-se a denominada de Tireopausa.

Ao longo dos próximos informativos, irei discorrer sobre as particularidades de cada uma das quedas hormonais aqui brevemente apresentadas.

Uma ótima semana a todos,

Italo Rachid

CREMESP 114612 CREMEC 4554